quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ENTREVISTA

A arte de Fazer Humor
Com Dirceu Andrade e Amauri Jucá


Dois dos maiores humoristas do estado do Piauí. Dirceu Andrade e Amauri Jucá falam sobre a profissão de humorista, com todas as suas nuances e sobre a carreira, sempre de forma bem humorada. Depois da participação no programa Domingão do Faustão, Amauri fala sobre a experiência e Dirceu sobre a expectativa para a participação no programa de domingo, 11 de outubro.

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Trecho da Entrevista com a Dupla


Volver: A gente já pôde perceber que vocês são bem humorados, eu quero saber se é sempre ou se às vezes tem aquele momento de estresse? Porque as pessoas sempre esperam que os humoristas sejam alegres 24 horas.

Amauri: Não é sempre não. O Dirceu é bem mais que eu. Inclusive, quando eu morava perto da casa dele, nós fazíamos compras na mesma padaria, ai toda vez que eu chegava lá o padeiro dizia: “Rapaz tu é muito zangado. O outro chega aqui fala com a gente, sorrir e tudo”, aí eu digo: “É porque às vezes ele está bem, hoje estou com problemas lá em casa, uma conta atrasada... Não, brincadeira!” A gente tem vida normal como todo mundo, tem seus problemas, e às vezes a gente não consegue se distanciar, aí vai andando mais sério e povo pensa que a gente vai andar sempre fazendo piada ou sorrindo ou brincando. Mas nem sempre acontece isso, a maior parte das vezes a gente está de bom humor, brincando, pelo menos falando por mim. A gente está se divertindo, mais outras vezes, a gente fica de cabeça baixa e tal. Tem esses momentos assim.

Dirceu: Fico assim se mexer com a minha família, aí fico zangado. Até comigo eu deixo passar. Mas com minha família...

Volver: É difícil quando vocês têm algum show e estão de mau humor ou tristes?

Dirceu: Logo antes de todo show eu rezo, pela platéia e por mim, caso aconteça algum problema. Antes do show eu sempre tenho minha reza, pra que tudo ocorra bem. É muito difícil a gente vender o humor sem estar bem humorado.

Amauri: Tem que estar bem ali pra fazer.

Volver: Aconteceu alguma situação bem complicada em algum show da dupla?

Dirceu: Quando o povo não está gostando. Eu acho que é a única coisa que eu fico triste, quando a platéia não está gostando. Por exemplo, quando tem um gaiato que começa a tirar onda, mas com isso eu sei me virar. Faço a platéia se voltar contra ele. No primeiro segundo, ele consegue me pegar, mas depois disso... Não mais!

Amauri: Já aconteceu de a gente fazer um show com a platéia que era de idosos, doentes, e até com problemas psíquicos então a gente ficou meio sem ação, ficou sem saber o que fazer.

Dirceu: Eles não correspondiam a nada que a gente fazia...

Amauri: Aí nós começamos a dançar e cantar e eles acharam ótimo!

Dirceu: Já fizemos show até em penitenciária (risos)!

Volver: E as piadas que a platéia não acha engraçada e não sorri?

Dirceu: Eu passo pra outra imediatamente, ou então, eu brinco com a gente mesmo.

Os dois: “Eita piada fraca essa!” ou “Realmente, essa é muito velha...”

Amauri: Aí o pessoal ri.

Dirceu: A gente sempre tenta sair pela tangente, eu improviso sempre, já gosto de improvisar. Ai nessas horas é o que eu uso mesmo...

Volver: Na arte de improvisar, mandar tiradas bem posicionadas, para tal, vocês utilizam todo um repertório. Como vocês fazem para estarem sempre atualizados?

Dirceu: Essas coisas vêm mais pela rua, quando eu preciso, a tirada ela vem naturalmente, em um momento muito espirituoso. Na hora sempre aparece alguma coisa na minha cabeça, não sei da onde vem, mas sei que vem. A tirada surge!

Amauri: Também tem muita coisa da bagagem cultural, a gente viveu numa cidade, que é Piripiri, e lá tem muitas pessoas com esse tipo de texto já pronto. O povo já tem essas tiradas na ponta da língua. E é dessa convivência, que a gente absorve esse repertório, esse jeito de pensar, o raciocínio rápido. A atualização vem da vivência mesmo, do povo da nossa cidade, no dia-a-dia, com algumas leituras. De tudo a gente tira um pouco e vai construindo.

Dirceu: Eu sempre vejo piada em qualquer coisa. Qualquer momento, qualquer lugar, tou sempre pensando em alguma coisa que, pelo menos, pra mim é engraçado.

Volver: E quando a pessoa envolvida na piada não vê graça? Por que para quem está de fora, pode até ser cômico... Mas para o envolvido pode ter um caráter trágico. E aí?

Dirceu: Ate numa palestra o homem disse que queda de bicicleta não tem graça nenhuma, mas eu vejo graça, sim! Eu rio primeiro e depois ajudo ou então ajudo primeiro, mas rio depois. Eu não vou deixar de mangar, não! Se for comigo o povo manga também, se eu nem preciso cair de bicicleta pra mangarem, já mangam das minhas pernas o tempo todo! (risos)

Volver: Muitas pessoas consideram o Ceará como o estado dos humoristas, e aqui no Piauí, temos muitos talentos?

Dirceu: Tem muita gente talentosa aqui, só que não trabalham com isso, que não fez disso uma profissão. Mas o que tem de gente engraçada por natureza. Tem muitos textos nossos que não são da gente, são de amigos, colaboradores. Os caras gostam de escrever, mas não de interpretar. São ótimos redatores!

Amauri: Tem sim, tem muita gente boa!


Volver: Aqui em Teresina, dá pra uma pessoa viver de humor?

Dirceu: E com dignidade (risos)! Não dá pra pessoa comprar a Hilux, não! Mas da pra viver tranqüilo.

Amauri: O problema é o olho das pessoas. Eu comprei um carro pra mim agora, um carro bom, considerado bom, ai eu tava estacionando aqui no CEUT. Uma mulher olhou pra mim e disse: “AHH, não vou mais pra o seu show, não! O senhor ta com um carrão desse aí, ta ganhando dinheiro demais, vou mais dar dinheiro pra você não.” Ai eu disse: “Pois aproveite e deixe de comprar no armazém Paraíba, porque só avião, o seu João Claudino tem 3! (risos)

Volver: Ao ir ao show de vocês, essa mulher pensou que estava fazendo uma caridade, era? Explica esse negócio direito... (risos)

Amauri: Pois é. Acho que ela tava pensando isso... Ouu. HAHA

Volver: Sem brincadeiras (impossível). Mas falando sério, o que vocês esperam passar pras pessoas que fazem caridade, ops... Que vão ao show de vocês?

Dirceu: As pessoas falam pra mim que aquele momento a gente consegue fazer com que eles esqueçam os problemas. Eu, por exemplo, tenho uma amiga que tem uma irmã que tem depressão, então ela diz que é um dos momentos melhores pra irmã dela, porque ela consegue sorrir, mesmo que só por alguns instantes. Deve ser muito ruim ter depressão, eu nunca andei nem perto, mas acredito que deve ser péssimo... Então se a gente tem essa função de botar um sorriso no rosto das pessoas, de proporcionar um momento de descontração, pra mim, tá ótimo!

Amauri: Tem gente que vai pra o show, preparado pra não sorrir. Principalmente o homem, geralmente eles vão carregados pelas mulheres. Chegam lá com a cara fechada, mas quando chega a segunda ou terceira piada, já tão rindo de tudo, já se soltam.

Dirceu: Tudo bem, na TV, eu não digo nem nada, porque as piadas são mais leves, o clima é outro. Mas no show, cara a cara mesmo... É difícil a pessoa não se divertir, porque tem todo aquele clima...

Volver: E falando em televisão, os dois tiveram participações no programa do Faustão, como foram essa participações?

Amauri: É uma experiência muito boa, muito positiva, em todos os sentidos, pra gente como aprendizado, como exposição do trabalho, como feedback no próprio mercado que a gente trabalha, porque as pessoas insistem e pedem... “Por que ainda não foi no Faustão?!”, e quando vai, “Por que não foi no Jô?!”. É que nem casamento, quando a pessoa namora ai tem que ter a pergunta: “Quando é que vão casar?”, quando casa: “Quando vai ter filho?” e depois: “Quando é que vão se separar?” E também é assim na carreira da gente, as pessoas se envolvem. Lá na Globo, as pessoas tratam muito bem a gente, a produção é fantástica, eles tratam a gente sem desprezo, um tratamento de primeira, botaram até meu camarim ao lado do André Marques, então eu achei uma vantagem muito grande... Dirceu interrompe: “Vem cá, tu achou isso uma vantagem?” (risos) Amauri: Claro que achei, o cara é Global e tal, nós dois ali lado a lado. Apesar da gente não ter contato direto com o próprio Faustão, dá pra perceber quando ele gosta do trabalho, foi assim da primeira vez que a gente teve lá, no Pistolão, ele falou pro diretor que tinha gostado muito do nosso trabalho, e isso é bastante positivo pra gente!

Volver: E o nervosismo de esperar a aprovação do público, sendo transmitido ao vivo para todo Brasil?

Amauri: O nervosismo bate e bate forte! Eu mandei o texto pra ele na terça feira (Henrique Matias), na quarta ele me ligou e queria que eu fosse no final de semana, eu já fiquei nervoso desde esse dia. Ficava pensando: “Será que vai dar certo o texto?” Eu olhava, mudava! Na hora que eu fui chamado pra ir pra o palco, eu pedi a Deus, Nossa Senhora dos Remédios (que é minha padroeira) pra me iluminar e dar tranqüilidade, a mim e a todos que estavam participando. Naquele momento, a gente tava numa corrente muito boa, muito positiva, os três participantes, a gente se ajudou muito, eu queria que todos fossem bem, arrancassem aplausos, a platéia colaborou, a platéia tava muito bem, respondendo bem... Por essa razão, deu tudo certo pra todo mundo.

Volver: E você Dirceu, vai participar domingo, está nervoso de se apresentar pra o Brasil inteiro?

Dirceu:Não, eu não fico nervoso não, da primeira vez eu não fiquei. É muito difícil algo me deixar nervoso. Da primeira vez que eu fui, as pessoas riram muito, mas se não rirem, ai eu vou, talvez ficar, um pouco... Posso ficar até triste, mas nervoso não. Eu ficava nervoso no começo, mas hoje não! Eu fico nervoso mesmo é pra andar de avião, isso sim. Mas fora esse medo de avião, eu tou tranqüilo...



Volver: Quando foi que vocês começaram a trabalhar juntos?

Amauri: Foi há muito tempo, em 1994, o Dirceu me convidou pra fazer um espetáculo, um espetáculo infantil sobre “a história do Zé Bandeira”, que foi o sucesso da copa de 94. A gente fez uma peça infantil em que eu fazia o sósia do Zé Bandeira. Depois disso a gente começou a fazer várias peças de teatro com o Grupo Harém, Direção do Arimatan Martins. Em 95 o Dirceu me chamou pra fazer um show o “Brincadeira tem Hora”. Depois ele convidou pra gente fazer um trabalho de humor juntos, isso foi em 2001 com “ O jumento e o bode”, aí de lá pra cá a cada ano fazemos um show. Demorou um pouco do “O Jumento e o Bode” pra o “Penélope”, mas depois disso, a cada ano um show novo, então a gente já vai pra 8 shows, já.

Volver: Depois de tanto tempo juntos, vocês não se “abusam”, não? (risos)

Amauri: Pra falar a verdade... (risos). Às vezes a gente vai, ai depois “Ei, fica aí”, mas depois a gente volta! (mais risos).

Dirceu: Mas é assim mesmo, às vezes ele (Amauri) quer as coisas de uma forma e eu de outra, é complicado. Mas o importante é saber que quando a gente ta fazendo o nosso trabalho, a gente é muito focado e o trabalho dá certo.

Amauri: O importante é isso, saber posicionar as coisas e aí tudo se encaixa.

Volver: E quanto ao novo show de vocês, “Humor no Coletivo”, como é e como está sendo a resposta do público?

Amauri: Esse show surgiu de uma proposta do SETUT, que queria um show exclusivo pra os motoristas e cobradores, pra gente brincar um pouco com essas histórias pra eles, e a gente fez esse espetáculo com texto do nosso amigo Airton Oliveira, que é parceiro da gente nos textos. Aí depois que o espetáculo já tava pronto e ensaiado, pensamos em mostrar pra o povo, a gente levou pro teatro e tem sido muito boa a receptividade do público.

Volver: Vocês fizeram algum “laboratório” para poder montar o show, andaram muito de ônibus, tipo: Algum universidade circular?? (risos)

Os dois em coro: Pegamos demais!!!!

Amauri: Eu pegava o Universidade Circular e o Redenção Casa Mater... Ave Maria, o que era aquilo?! (risos) E o Amarelão? Andar de amarelão... vixiii!

Dirceu: Eu sou antigo, andava de Diametral, acho que vocês não conhecem! Não eram nem vivas!

VÍDEOS da dupla:

Por: Ana Isabel Freire, Mariana Guimarães e Nina Nunes.

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